Michael Sandel e o mito da meritocracia americana

Existe uma frase que provavelmente todos nós já ouvimos alguma vez:

“Se você se esforçar o suficiente, conseguirá chegar lá.”

É uma ideia sedutora.

Ela transforma sucesso em recompensa pelo trabalho, disciplina e talento. E, ao mesmo tempo, oferece uma explicação muito conveniente para o fracasso: se alguém não conseguiu, talvez simplesmente não tenha se esforçado o suficiente.

Essa é a lógica da meritocracia.

E é justamente contra essa forma de enxergar a sociedade que Michael Sandel constrói A Tirania do Mérito.

O livro não é uma defesa da preguiça, nem uma crítica à competência, ao estudo ou ao esforço individual. O argumento de Sandel é muito mais sofisticado.

O problema começa quando uma sociedade deixa de dizer que esforço e talento importam e passa a afirmar que eles explicam o sucesso.

Porque, nesse momento, desaparecem da equação a família em que você nasceu, a escola que frequentou, o bairro onde cresceu, as pessoas que conheceu, o dinheiro disponível, a estabilidade familiar, as oportunidades que apareceram pelo caminho e até a boa e velha sorte.

E há uma ironia particularmente interessante nisso tudo.

Poucos países transformaram a meritocracia em uma narrativa tão poderosa quanto os Estados Unidos.

A terra das oportunidades.

O lugar em que qualquer pessoa poderia começar de baixo e chegar ao topo.

Só que os números tornam essa história bem menos confortável.

A terra das oportunidades — mas para quem?

Talvez uma das maiores forças do chamado sonho americano seja a ideia de mobilidade social.

Você pode nascer pobre, estudar, trabalhar, abrir um negócio, prosperar e mudar completamente a trajetória de sua família.

Naturalmente, isso acontece.

Existem inúmeras histórias reais de pessoas que fizeram exatamente esse percurso.

O problema está em transformar essas exceções em prova de que o sistema funciona igualmente para todos.

Pesquisas sobre mobilidade intergeracional realizadas pelo Opportunity Insights mostram que as chances de uma criança nascida entre as famílias mais pobres dos Estados Unidos chegar ao grupo dos mais ricos variam enormemente dependendo do lugar onde ela cresce. Em algumas regiões, a probabilidade de sair do quinto mais pobre da população e alcançar o quinto mais rico fica abaixo de 5%.

Isso muda bastante a pergunta.

Em vez de:

“Por que algumas pessoas não conseguem subir?”

talvez devêssemos perguntar:

“Quão fácil nossa sociedade torna essa subida para quem começa lá embaixo?”

Não é a mesma coisa.

Porque alguém pode trabalhar extraordinariamente duro durante toda a vida e continuar enfrentando obstáculos que outra pessoa sequer precisou conhecer.

A meritocracia tende a comparar a linha de chegada.

Sandel nos obriga a olhar também para onde cada corredor começou a prova.

O problema moral da meritocracia

Há ainda uma consequência menos óbvia.

Quando acreditamos que uma sociedade é verdadeiramente meritocrática, passamos a concluir que os vencedores merecem integralmente a vitória.

Se fiquei rico, foi porque trabalhei.

Se consegui aquela vaga, foi porque era melhor.

Se entrei na melhor universidade, foi porque mereci.

E, consequentemente, quem ficou para trás também passa a ser considerado responsável por sua situação.

Sandel chama atenção justamente para a arrogância produzida por essa lógica.

O vencedor deixa de enxergar sua trajetória como uma combinação de esforço, capacidade, circunstância e sorte.

Passa a enxergá-la como comprovação de seu próprio mérito.

E talvez seja exatamente aí que a meritocracia deixe de ser um ideal de justiça e comece a se transformar em uma espécie de legitimação da desigualdade.

Ivy League: o grande templo da meritocracia americana

Poucos lugares simbolizam melhor essa contradição do que as universidades de elite americanas.

Harvard.

Yale.

Princeton.

Columbia.

Pennsylvania.

Brown.

Dartmouth.

Cornell.

A famosa Ivy League.

Entrar em uma dessas universidades pode significar acesso a redes profissionais, empresas, escritórios, instituições públicas e posições de liderança que influenciarão toda a trajetória de uma pessoa.

É compreensível, portanto, que exista enorme competição pelas vagas.

O discurso oficial é quase perfeito para uma sociedade meritocrática:

os melhores estudantes conquistam as melhores universidades.

Só que há um problema.

Os ricos também descobriram maneiras perfeitamente legais de largar alguns metros à frente.

O mérito ajuda. Ter nascido na família certa também.

Um grande estudo de Raj Chetty, David Deming e John Friedman analisou as chamadas universidades Ivy-Plus — a Ivy League mais Stanford, MIT, Duke e Universidade de Chicago.

Os resultados são impressionantes.

Entre candidatos com resultados semelhantes em SAT ou ACT, jovens pertencentes ao 1% mais rico das famílias americanas tinham probabilidade 58% maior de serem admitidos nessas universidades do que candidatos de classe média.

Não estamos comparando um excelente aluno com outro que tirou notas muito inferiores.

Estamos falando de estudantes com indicadores acadêmicos semelhantes.

Parte da vantagem aparece em mecanismos aparentemente neutros.

Um deles é o chamado legacy admission.

Em português simples:

se seus pais estudaram naquela universidade, você pode ter uma vantagem.

Segundo a mesma pesquisa, candidatos filhos de ex-alunos pertencentes ao 1% mais rico tinham uma probabilidade de admissão aproximadamente cinco vezes maior que outros candidatos comparáveis em notas, características demográficas e avaliações do processo seletivo.

Há ainda o recrutamento esportivo e avaliações de características extracurriculares, áreas em que estudantes de famílias ricas também aparecem em vantagem.

Então a expressão “os melhores entram” começa a exigir uma nota de rodapé bastante grande.

E o dinheiro começa a trabalhar muito antes da inscrição

Na realidade, a vantagem não começa no formulário da universidade.

Ela começa muitos anos antes.

Uma família rica pode proporcionar melhores escolas, professores particulares, cursos preparatórios, intercâmbio, esportes caros, atividades extracurriculares, viagens, orientação profissional para a candidatura e tempo para que o jovem construa um currículo impressionante.

Enquanto isso, outro adolescente talvez esteja estudando em uma escola pública de baixa qualidade e trabalhando algumas horas por dia para complementar a renda da própria família.

Quando chegam aos 17 anos, os dois aparecem diante do mesmo processo seletivo.

Tecnicamente, estão competindo pela mesma vaga.

Mas dificilmente podemos dizer que disputaram a mesma corrida.

Dados anteriores do Opportunity Insights dão dimensão dessa desigualdade: nos grupos analisados, estudantes nascidos no 1% mais rico tinham probabilidade 77 vezes maior de frequentar uma universidade Ivy-Plus que aqueles nascidos no quinto mais pobre da população.

Isso não significa que um estudante rico que entrou em Harvard não tenha estudado.

Provavelmente estudou muito.

A questão levantada por Sandel é outra:

quanto de seu sucesso podemos atribuir exclusivamente ao mérito?

Operação Varsity Blues: quando a porta lateral ficou explícita

E então chegamos a um episódio que parece ter sido escrito especialmente para ilustrar A Tirania do Mérito.

Em março de 2019, autoridades americanas revelaram uma investigação sobre um enorme esquema de fraude no ingresso em universidades de elite.

A operação ficou conhecida como Operation Varsity Blues.

No centro do esquema estava William “Rick” Singer, consultor especializado em admissões universitárias.

Singer dizia existir três maneiras de entrar em uma universidade.

A front door, a porta da frente: ser aprovado normalmente.

A back door, a porta dos fundos: grandes doações à universidade, envolvendo quantias que poucas famílias poderiam sequer imaginar.

E havia a alternativa que ele vendia aos clientes:

a side door.

A porta lateral.

Segundo o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, pais ricos pagavam Singer para fraudar provas de admissão ou subornar treinadores e funcionários de universidades para que seus filhos fossem apresentados como atletas recrutados, mesmo quando não possuíam histórico esportivo compatível.

Houve casos de fotografias manipuladas, currículos esportivos inventados, provas alteradas e candidatos falsamente apresentados como atletas.

Singer recebeu mais de US$ 25 milhões de seus clientes durante o funcionamento do esquema e pagou mais de US$ 7 milhões em propinas, segundo o Departamento de Justiça.

O escândalo envolveu empresários, executivos e celebridades.

Entre os casos mais conhecidos estavam a atriz Lori Loughlin e seu marido, Mossimo Giannulli, condenados após participarem de um esquema para que suas filhas fossem admitidas na University of Southern California como supostas atletas de remo.

O caso virou documentário, série de reportagens e espetáculo público.

Mas talvez a história mais interessante não esteja nas pessoas que fraudaram o sistema.

Está no sistema que tentaram fraudar.

A porta lateral ilegal — e as portas laterais perfeitamente legais

A Varsity Blues causou indignação porque alguns pais ricos trapacearam.

E, naturalmente, deveriam causar indignação.

Mas A Tirania do Mérito permite fazer uma pergunta mais desconfortável:

por que nos indignamos tanto com a porta lateral ilegal enquanto convivemos tranquilamente com inúmeras vantagens perfeitamente legais?

Uma família gastar dezenas de milhares de dólares com preparação acadêmica é legal.

Colocar o filho em esportes pouco acessíveis às classes mais pobres é legal.

Frequentar escolas que possuem relações históricas com universidades de elite é legal.

Ter consultores especializados em montar candidaturas é legal.

Ser filho de ex-aluno e receber preferência no processo seletivo pode ser legal.

Nenhuma dessas coisas equivale à fraude descoberta pela Varsity Blues.

É importante deixar isso claro.

Mas todas elas nos obrigam a questionar o quanto o processo é realmente um campeonato neutro de talentos.

A grande contribuição do escândalo talvez tenha sido tornar visível aquilo que normalmente permanece escondido.

Os pais envolvidos não estavam satisfeitos em oferecer aos filhos boas oportunidades.

Queriam garantir o resultado.

E possuíam dinheiro suficiente para tentar comprar um caminho alternativo.

Universidade de elite não é apenas educação

Talvez fosse menos importante se estivéssemos falando apenas da escolha de onde passar quatro anos estudando.

Mas não estamos.

A pesquisa do Opportunity Insights encontrou efeitos importantes associados à frequência de universidades Ivy-Plus: para determinados estudantes próximos da margem de admissão, frequentar uma dessas instituições em vez de uma universidade pública altamente seletiva aumentou consideravelmente a probabilidade de chegar ao 1% superior da distribuição de renda, cursar uma pós-graduação de elite ou trabalhar em uma empresa de grande prestígio.

Ou seja, estamos falando de instituições que também funcionam como portões de acesso às elites econômicas, profissionais e políticas.

E isso torna a discussão sobre quem consegue atravessar esses portões muito mais importante.

Mas as universidades estão mudando

Também seria injusto pintar um quadro totalmente estático.

Algumas universidades de elite ampliaram significativamente seus programas de assistência financeira.

Harvard, por exemplo, passou a oferecer, a partir do ano acadêmico de 2025–2026, gratuidade completa para famílias com renda anual de até US$ 100 mil e ao menos gratuidade das mensalidades para muitas famílias com renda até US$ 200 mil.

Na turma de 2029, Harvard informa que cerca de 21% dos estudantes são estimados como elegíveis ao Pell Grant, benefício federal direcionado principalmente a estudantes de menor renda.

É um avanço importante.

Mas resolver o custo depois que alguém conseguiu entrar não necessariamente resolve todas as desigualdades existentes antes da candidatura.

Esse talvez seja um dos pontos mais importantes da discussão.

O que Sandel realmente está criticando?

Não é o mérito.

Seria absurdo defender uma sociedade em que esforço e competência não tivessem qualquer importância.

Imagine escolher um médico, engenheiro ou piloto sem considerar sua capacidade.

O problema de Sandel é o que ele chama de tirania do mérito.

É transformar mérito em explicação absoluta.

É acreditar que:

“Eu venci porque mereci. Portanto, quem perdeu deve ter merecido perder.”

É aí que uma ideia aparentemente justa pode produzir uma sociedade profundamente cruel.

Porque a meritocracia oferece aos vencedores aquilo que toda elite deseja:

uma justificativa moral para ocupar o topo.

Não somos privilegiados.

Somos merecedores.

O vencedor também dependeu da sorte

Existe ainda algo quase filosófico na argumentação de Sandel.

Mesmo nossos talentos não foram propriamente escolhidos por nós.

Você não decidiu nascer com determinada inteligência matemática.

Não escolheu determinada habilidade física.

Não escolheu ter facilidade para comunicação.

E mesmo que desenvolva essas capacidades através de enorme esforço, também não decidiu nascer em uma sociedade que remunera determinadas habilidades muito mais do que outras.

Lionel Messi nasceu com enorme talento para jogar futebol.

Imagine exatamente o mesmo talento nascendo no século XII.

Provavelmente não produziria uma fortuna.

O mercado valoriza habilidades dentro de determinada circunstância histórica.

Sandel nos convida, portanto, a recuperar uma virtude meio esquecida:

a humildade.

Reconhecer nossa participação no próprio sucesso sem imaginar que fomos seus únicos autores.

Talvez a meritocracia seja mais confortável para os vencedores

Depois de terminar A Tirania do Mérito, fiquei com a impressão de que a meritocracia possui uma característica muito particular.

Ela é uma excelente maneira de organizar uma narrativa depois que conhecemos o resultado.

O empresário bem-sucedido olha para trás e enxerga suas decisões corretas.

O profissional que ascendeu vê os anos de trabalho.

O estudante de Harvard lembra das noites estudando.

Tudo isso é verdadeiro.

Mas é apenas parte da história.

É muito mais difícil enxergar as portas que estavam abertas.

A família que ajudou.

A escola frequentada.

Os contatos.

A estabilidade.

A ausência de determinados problemas.

O lugar onde nasceu.

E as oportunidades que simplesmente apareceram.

Talvez seja exatamente por isso que A Tirania do Mérito incomode tanto.

Ele não pede aos vencedores que tenham vergonha de vencer.

Pede apenas que abandonem a ilusão de que venceram sozinhos.

Vale a pena ler A Tirania do Mérito?

Muito.

Especialmente porque o livro não oferece uma crítica simplista ao capitalismo nem propõe substituir mérito por algum sistema em que esforço não tenha importância.

Sandel está interessado sobretudo nas consequências sociais e morais de uma sociedade que transforma sucesso econômico e acadêmico em medida de valor pessoal.

E isso nos leva a uma pergunta que talvez seja ainda mais importante do que discutir desigualdade:

qual é o respeito que uma sociedade deve às pessoas independentemente da posição que elas conseguiram alcançar?

Porque uma sociedade digna talvez não seja aquela em que todos possuem exatamente a mesma chance de chegar ao topo.

Talvez seja aquela em que não seja necessário chegar ao topo para possuir dignidade, reconhecimento e uma vida decente.

Essa é uma diferença enorme.

E é provavelmente a ideia de A Tirania do Mérito que ficará comigo por mais tempo.

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E considerando o assunto do livro, talvez seja apropriado reconhecer desde já:

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