Guerra pela Eternidade, de Benjamin Teitelbaum, investiga o Tradicionalismo e a influência de Bannon, Dugin e Olavo de Carvalho sobre a nova direita.
Alguns livros explicam acontecimentos.
Outros ajudam a perceber forças que estavam agindo nos bastidores sem que prestássemos muita atenção nelas.
Guerra pela Eternidade, de Benjamin R. Teitelbaum, pertence ao segundo grupo.
O livro investiga personagens que estiveram próximos ou ao redor de alguns dos principais movimentos da direita populista contemporânea: Steve Bannon, Aleksandr Dugin e Olavo de Carvalho.
O que os aproxima, segundo Teitelbaum, é uma relação — em graus diferentes e nem sempre ortodoxa — com uma corrente intelectual chamada Tradicionalismo. Não no sentido cotidiano de “defender tradições”, mas como uma escola filosófica e espiritual surgida no início do século XX e profundamente crítica à modernidade.
E talvez seja justamente isso que torna o livro tão interessante.
Enquanto nós normalmente prestamos atenção aos políticos, eleições e discursos públicos, Teitelbaum olha para quem produz algumas das ideias que circulam por trás deles.
Uma guerra que acontece antes da eleição
O título do livro é muito bem escolhido.
A “guerra pela eternidade” não é exatamente uma guerra entre partidos.
É uma disputa sobre a própria forma de interpretar a história.
O Tradicionalismo estudado por Teitelbaum rejeita a ideia moderna de progresso linear. Em vez de imaginar que a humanidade caminha continuamente para algo melhor, seus pensadores enxergam a história como uma sucessão de ciclos de ascensão, decadência, destruição e renascimento.
A modernidade, nessa leitura, não representa necessariamente avanço.
Pode representar decadência.
Liberalismo, secularização, igualitarismo e materialismo aparecem como sinais de uma civilização afastando-se de uma ordem espiritual anterior.
Isso muda bastante a maneira de enxergar a política.
Se você acredita que a sociedade está em processo de decadência, destruir determinadas instituições deixa de parecer irresponsabilidade.
Pode começar a parecer purificação.
O caos deixa de ser necessariamente um problema.
Pode ser uma passagem.
Os intelectuais por trás dos líderes
Esse talvez seja o aspecto que mais me chamou atenção no livro.
Teitelbaum não está principalmente interessado em Trump, Putin ou Bolsonaro.
Ele olha para figuras que orbitam o poder.
Steve Bannon nos Estados Unidos.
Aleksandr Dugin na Rússia.
Olavo de Carvalho no Brasil.
O autor passou anos entrevistando e acompanhando alguns desses personagens para tentar compreender como ideias aparentemente marginais conseguem encontrar caminhos até a política institucional.
É importante não exagerar essa relação.
Dizer que determinado intelectual influenciou o ambiente político de um governo não significa afirmar que o governante simplesmente executa suas ideias.
A relação entre Dugin e o poder russo, por exemplo, é frequentemente debatida e não deve ser reduzida à imagem de um “filósofo controlando Putin”.
Da mesma forma, Bannon não inventou Trump.
E Olavo de Carvalho não explica sozinho o bolsonarismo.
O ponto interessante é outro:
ideias precisam de intermediários para chegar ao poder.
E esses personagens funcionam como tradutores.
Transformam conceitos filosóficos, ressentimentos culturais e visões de mundo em linguagem política.
Steve Bannon: política como guerra cultural
Bannon é provavelmente o personagem mais conhecido do livro.
Sua importância está menos em uma filosofia perfeitamente coerente e mais na capacidade de transformar ideias em estratégia política.
Teitelbaum mostra sua relação com o Tradicionalismo e sua visão de uma sociedade ocidental em crise, confrontada por forças culturais e políticas que, em sua interpretação, estariam destruindo antigas estruturas.
É uma lógica que ajuda a explicar algo muito presente na política contemporânea:
a transformação de praticamente qualquer questão em guerra cultural.
Educação.
Religião.
Família.
Imigração.
Comportamento.
Arte.
Universidade.
Tudo pode ser apresentado como parte de uma batalha civilizacional.
Quando isso acontece, adversários políticos deixam de ser apenas pessoas com propostas diferentes.
Passam a representar ameaças à própria sobrevivência da sociedade.
Dugin e a ideia de uma civilização em confronto
Na Rússia, Teitelbaum dedica atenção a Aleksandr Dugin.
Dugin dialoga intensamente com pensadores Tradicionalistas e combina essas influências com nacionalismo russo e eurasianismo.
Novamente, é preciso cuidado com a caricatura.
Não é necessário imaginar Dugin sentado ao lado de Putin escrevendo decisões de governo para perceber sua importância intelectual.
A relevância está na circulação de determinadas ideias:
o Ocidente como civilização decadente;
o liberalismo como inimigo;
a política internacional como confronto entre civilizações;
e a defesa de uma ordem alternativa àquela construída pelas democracias liberais ocidentais.
Quando essas ideias passam a circular entre intelectuais, mídia, movimentos políticos e instituições, sua influência deixa de depender de uma relação direta com o chefe de Estado.
Olavo de Carvalho: importante no livro, menos importante para este artigo
O capítulo brasileiro naturalmente passa por Olavo de Carvalho.
Teitelbaum chegou a entrevistá-lo e o colocou dentro da rede intelectual que estudou, embora o próprio Olavo tenha rejeitado essa caracterização e contestado sua associação ao Tradicionalismo. O autor, por sua vez, manteve sua interpretação, ressaltando inclusive que Olavo não era um pensador Tradicionalista ortodoxo.
Acho que aqui vale não gastar muito tempo.
Olavo é importante para compreender o período analisado pelo livro e a formação intelectual de parte da direita brasileira daquele momento.
Mas o interesse maior de Guerra pela Eternidade não depende dele.
Hoje, o bolsonarismo continua politicamente relevante, inclusive com Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência em 2026, mas isso não significa que o núcleo intelectual analisado por Teitelbaum continue funcionando da mesma maneira ou com os mesmos protagonistas.
E talvez esse seja justamente um ponto interessante:
os políticos mudam mais rapidamente do que as ideias.
A política visível e a política invisível
É fácil acompanhar a política observando eleições.
Quem ganhou.
Quem perdeu.
Quem será candidato.
Qual partido cresceu.
Mas existe outra camada muito menos visível.
É a camada das ideias.
As palavras que começam a circular.
Os conceitos que se tornam comuns.
Os inimigos que passam a ser definidos.
As explicações que transformam acontecimentos isolados em parte de uma grande narrativa.
Um político pode desaparecer.
Um partido pode perder uma eleição.
Mas determinada visão de mundo pode sobreviver por décadas.
É essa dimensão que Guerra pela Eternidade ajuda a enxergar.
E aqui o livro conversa com Os Engenheiros do Caos
Os dois livros observam fenômenos parecidos por ângulos diferentes.
Os Engenheiros do Caos olha principalmente para a máquina:
algoritmos, dados, redes sociais, propaganda, fake news e mobilização política.
Guerra pela Eternidade olha para algo anterior:
as ideias que podem alimentar essa máquina.
Um livro ajuda a entender como determinada mensagem se espalha.
O outro pergunta de onde algumas dessas mensagens vieram.
E juntos mostram algo importante.
A política contemporânea não é feita apenas de candidatos e eleitores.
Existe toda uma infraestrutura formada por intelectuais, financiadores, estrategistas, influenciadores, plataformas digitais e produtores de narrativas.
Muitas vezes, quando finalmente percebemos determinada ideia no discurso de um político, ela já percorreu um caminho bastante longo.
Vale a pena ler Guerra pela Eternidade?
Sim, principalmente se você gosta de tentar entender o que existe por trás das disputas políticas mais óbvias.
Teitelbaum entra em um universo estranho, às vezes esotérico, às vezes contraditório e frequentemente difícil de classificar.
E talvez justamente por isso o livro seja tão interessante.
Ele mostra que ideias consideradas marginais podem encontrar intermediários capazes de transformá-las em discurso político.
Nem sempre os intelectuais governam.
Nem sempre os políticos compreendem profundamente os pensadores que citam.
Mas ideias possuem uma característica curiosa:
elas conseguem exercer influência mesmo quando quem as repete já esqueceu de onde vieram.
Quer ler?
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